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Jóhann Jóhannsson e a música de A Chegada (Arrival)

“A Chegada”, do diretor Denis Villeneuve, conta a história de aliens que aparecem em nosso planeta e da tentativa de se comunicar com eles. Para isso o governo norte americano chama uma linguista (a atriz Amy Adams) que possa decifrar a linguagem dos visitantes e estabelecer contato.

Repare na forma que o compositor islandês Jóhann Jóhannsson escolheu para criar a trilha sonora do filme: usando o canto, em melodias sem letra, explorando apenas as sonoridades possíveis da nossa voz. O resultado se aproxima do minimalismo climático e da ambient music, sonoridades que já foram avant garde mas são muito comuns no cinema atual. Veja os comentários de Jóhann sobre o processo de criação da trilha:

E aqui, umas das músicas do filme, misturando vozes e sons sintéticos:

Hans Zimmer – Interestelar (trilha sonora do filme)

Fui assitir “Interestelar” de Christopher Nolan bem depois de seu lançamento nos cinemas. Que pena que perdi a grandiosidade desse espetáculo em uma tela grande, mas ficou o consolo de poder ver e rever no computador esse casamento perfeito entre seu balé imagético e a música poderosa do alemão Hans Zimmer (com quem Nolan já trabalhou em “Inception” e na trilogia de Batman).

Uma das cenas mais marcantes do filme é quando a tripulação da espaçonave Endurance aterrisa em Miller, um planeta coberto por água. Nessa sequência, a música começa sutil, como um tique-taque de relógio, e vai crescendo junto com a tensão do que está prestes a acontecer. E que é colossal. Orquestra e um órgão (referência a “Also Sprach Zaratustra” de Richard Strauss, famoso tema da abertura de “2001” de Stanley Kubrick) fazem pulsar uma massa sonora que acompanha a ação da tela. Veja que interessante: o pulso metronômico da música, sua analogia com um relógio, sublinha um dos elementos importantes da trama, que é a passagem do tempo.

O órgão aparece em vários momentos do filme (como aqui) e é um dos elementos de maior dramaticidade do “score”. Além de “2001”, esse órgão é também uma referência a “Koyaanisqatsi” (1982), filme de Godfrey Reggio com música de Philip Glass e no qual a temática é basicamente a mesma de “Interestelar”: a sobrevivência da vida no planeta Terra. Essa homenagem ao minimalismo de Glass fica evidente quando se compara a cadência do tema de abertura em “Koyaanisqatsi” com o que Hans Zimmer compôs para o encerramento do filme de Christopher Nolan, e que é um tema que aparece também em outros momentos do filme:

GEM – Grupo Experimental de Música

Instrumentos criadas pelos próprios músicos. Sonoridades inusitadas e até mesmo estranhas. Shows performáticos com instalações sonoras. Esse é o Grupo Experimental de Música, criado em Santo André (São Paulo) por músicos eruditos que sabem e curtem construir seus próprios instrumentos. Participaram da trilha sonora do premiado filme de animação “O Menino E O Mundo” (2013), do diretor Alê Abreu. No video abaixo você pode ver a loucura que fizeram para criar os sons (sound design) do filme:

http://www.youtube.com/watch?v=y3EOLvxMKa8

Abaixo, fazem uma performance com os sons encontrados em um ferro velho:

E ao vivo, com Naná Vasconcelos:

Oscar 2015: a bateria de “Birdman”

Assisti a “Birdman” um dia antes do diretor Alejandro González Iñárritu sair da cerimônia do Oscar com as estatuetas de melhor filme, melhor diretor, melhor fotografia e melhor roteiro original. Merecido, muchisimo. E quem viu o filme deve ter notado a música que acompanha os longos planos sequência. Aqueles solos de bateria, livres como no jazz, e muitas vezes com uma pegada funky. São de Antonio Sanchez, baterista mexicano que já acompanhou o guitarrista Pat Metheny mas nunca havia composto nada para o cinema. E olha a coincidência, quando adolescente Antonio escutava na rádio o mesmo Alejandro Iñárritu atuando como DJ (“He played the hippest music in Mexico”, daqui).

Música ousada para um longa metragem, traduzindo a tensão e ansiedade do personagem de Michael Keaton sem o uso de melodias. Merecia um Oscar, certo? Só que não: a Academia considerou-a inelegível para concorrer à categoria de melhor música original, alegando que boa parte do filme usa música erudita (Gustav Mahler e Tchaikovsky) e “Crazy” (Gnarls Barkley) em gravações que são anteriores à produção do filme. Poderiam portanto ter indicado “Birdman” à categoria de melhor trilha sonora, já que não concordaram com melhor música original (“trilha sonora” abarca gravações pré existentes e também a música criada especialmente para o filme).

Online, se encontram poucas sequências do filme com as investidas de Antonio nos couros; o que se acha é principalmente a trilha em separado ou os trailers oficiais. Então curta abaixo um pouco da música de “Birdman” (quem quiser assistir a uma performance sua ao vivo executando todo o score do filme, clique aqui):

O Grande Hotel Budapeste

[ Atualizando: esse filme ganhou o prêmio de melhor Trilha Sonora Original no Oscar 2015 ]

Que filme maravilhoso é “O Grande Hotel Budapeste” de Wes Anderson. Melhor ainda ver como a música original de Alexandre Desplat contribui para que o conjunto ganhe em dramaticidade e humor.

Não assitiu? Veja. Baixe, alugue, empreste, se vire. E curta a música (abaixo), que é uma mistura de atmosferas do leste europeu, músicas agitadas e dançantes, polkas folclóricas e temas orquestrais que não são nada do que se costuma utilizar hoje em dia como “música cinemática”. Ou seja, é uma trilha sonora grandiosa sem ser épica, bem humorada sem ser ridicula. O que significa dizer que se ajusta perfeitamente no espirito do filme, ambientado na Europa oriental na primeira metade do séc. XX.

Por exemplo, o tema principal, tenso:

Agora, o mesmo tema aplicado sob uma das cenas:

Que tal sair dançando freneticamente? Experimente:

E essa estória de “música do leste europeu”? Ouça por exemplo o tema do Sr. Moustafa (narrador da estória), executado por um instrumento muito comum nos Balcans chamado cimbalom:

Michael Nyman – O Piano

O Piano (The Piano) é um filme de 1993 escrito e dirigido por Jane Campion. Sua trilha sonora, composta pelo inglês Michael Nyman, venceu o Globo de Ouro. Merecido. Algum prêmio teria que levar, já que a música (e o piano) são a matéria prima original em torno da qual se movem os personagens, especificamente Ada (interpretada por Holly Hunter) e George (Harvey Keitel).

Na cena abaixo, Ada reencontra seu instrumento musical, deixado à beira da praia após ela se mudar para a Nova Zelândia e ter seu piano “barrado” pelo futuro marido, que não se interessa em transportar a pesada carga até sua casa. A música está a meio caminho entre o repertório pianístico do romantismo e os procedimentos minimalistas de Michael Nyman, compositor que foi fundamental na construção da filmografia do também britânico Peter Greenaway (Afogando em Números, O Cozinheiro O Ladrão Sua Mulher E O Amante, Os Livros De Próspero).